Viajando pela Internet descobri esse vídeo, apresentado como exemplo de uma grande sabedoria popular diante da adversidade.
Mostra jovens sedentos para tomar vinho e não tem um saca-rolha disponível.
O jovem encarregado para abrir a garrafa, bêbado que nem um gambá (aliás, alguém aí já viu um gambá bêbado pra injuriar tanto assim o animal), tenta de vários maneiras e, finalmente, encontra um jeito próprio e criativo de abrir a garrafa e beber o vinho.
Se isso é motivo para sair no mundo todo, então viva nós brazucas.
Mesmo sendo um horror para os enólogos, perdi a conta de abrir ou assistir gente abrir garrafa de vinho enrolando um pano, encostando na parede e bater até expulsar a rolha.
Podia estragar o vinho, mas que a gente bebia, bebia.
A garrafa de vinho aparecia sempre no final da farra.
Não era o líquído preferido, perdendo pra cerveja, cachaça, rum e até uísque.
Quando o vinho aparecia já tinha nego a fim de tomar "solda cáustica".
Podia vir "solução de bateria" que a gente encarava.
Com o vinho não tinha preocupações com aroma, buquê, textura, mais encorpado ou menos encorpado, a gente num queria saber nem de safra, procedência, ano de engarrafamento e todos aqueles salamaleques que os apreciadores de vinho possuem.
Eles podem até achar que nós vivíamos na barbárie. OK. Doces bárbaros.
Conheço muita gente metida a bacana hoje em dia, que há pouco tempo sentava num restaurante, quase que esnobava a carta de vinhos, olhava de soslaio para o garçon, estufava o peito de orgulho e de civilização, esperançoso que o local não tivesse o vinho que iria pedir, só pra humilhar os presentes.
E, bem esnobe, solenemente, anunciava o pedido, como se fosse a última maravilha da terra: tem um Liebfraumilch?
Ainda carregava na pronúncia, quando não esticava a conversa por aproximados 10 segundos, para explicar a origem daquela garapa alemã,de quinta categoria.
Aliás, a parte mais fresca que acho hoje é quando o metido a enólogo levanta e gira a taça, diz que é pra o vinho respirar, cheira e bebe.
Ô besteira besta!
No dia que derramar na camisa branca ele nunca mais fará isso.
Nós, pobres e humildes mortais naqueles tempos pretéritos, tínhamos coisas bem melhores.
Aqueles garrafões vestidos com uma tela horrível, de plástico, eram deliciosos.
Pra gente não ficar por baixo, inventava nomes franceses para os vinhos.
Capelinha virava "Capelan"; Carreteiro era "Carreteur"e Sangue de Boi surgia esnobe como "Sanguê de Boá", todos com arrastado sotaque francês.
E o jeito de servir?
A gente parecia um garçon do Fazano ou profissional treinado na Escola Doméstica.
O civilizado, o elegante, o chique e o faxion era servir por cima do ombro, na maior pose, derramando o maravilhoso líquido em copos de plástico.
Os de geléia eram mais sofisticados e pra ocasiões especiais. Não era pra usar assim, na diária.
A gente não perdia tempo pra descobrir qual era a taça ideal, correta, ajustada perfeitamente para o paladar.
E entornava tudo.
A dor de cabeça do dia seguinte era facilmente superada. Quando a gente tem 20 anos o fígado aguenta todo tipo de desaforo.
Você quer uma adversidade maior do que ser liso?
Com todo o respeito aos enólogos e aos enochatos de hoje, atire a primeira pedra quem não abriu uma garrafa de vinho assim, no modelo importado, ou do nosso jeito mesmo:
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
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